[Oz] Um Jogo de Damas (SE01EP08)

Um Jogo de Damas (“A Game of Checkers“)
SE01EP08 – Exibido pela primeira vez em 25 de agosto de 1997
Escrito por Tom Fontana e dirigido por Jean de Segonzac

Jogo de damas

Guerras acontecem por causa de jogos de damas“, conclui Augustus Hill (Harold Perrineau) no primeiro minuto de Um Jogo de Damas. Diz ele que os professores estavam enganados quando diziam que o curso da história seria mudado por grandes homens como Mahatma Gandhi (1869-1948) e Abraham Lincoln (1809-1865). Na realidade, quem dita os rumos da humanidade somos nós, as pessoas comuns, que com ações triviais transformam, sem saber, tudo ao seu redor. E, como em um jogo de damas, existe transformações de minuto em minuto.

Mesmo após perder a visão de um olho e ter fezes esfregadas em seu rosto, Vern Schillinger (J.K. Simmons) tem três meses até ser liberado em condicional. Até lá, deixa de ser o psicopata neonazista e se torna um perfeito pacifista. O contrário de Tobias Beecher (Lee Tergesen), que abandonou sua persona submissa para se tornar violento e vingativo. A guarda Diane Wittlesey (Edie Falco) se transformou em uma criminosa para sustentar a mãe doente e a filha, contrabandeando cigarros para Scott Ross (Stephen Gevedon). Bob Rebadow (George Morfogen), que pensava falar com Deus, pode ter caído na razão e percebido que ficou surdo. E a “paz” de Emerald City se transformou em caos.

E, apesar das ações e da presença de grandes jogadores, de todos os planos de Kareem Said (Eamonn Walker) (que envolviam Zahir Arif (Granville Adams) provocar um guarda e ser atacado) e de todas as articulações políticas de Ryan O’Reily (Dean Winters), a rebelião – fantasma que se esgueirou pelas sombras de toda a temporada, já tendo sido anunciada por Said em A Rotina – é causada por dois desconhecidos. Uma dupla de agentes do caos que, brigando por conta de um jogo de damas, armam o palco perfeito para a dominação de Said. Nunca apareceram antes e nunca aparecerão novamente.

A vida é assim. Vez ou outra, um desconhecido aparece e transforma o curso de sua história, seja atropelando sua filha enquanto ela anda de bicicleta, seja esfaqueando seu pescoço por você não ter gostado do projeto apresentado, seja te espancando enquanto você vendia drogas para dois adolescentes. Nunca os viu antes e nunca os verá novamente.

Kareem Said organiza a rebelião contra o sistema criminal. Sabe que os presos não estão ali por seus crimes, mas porque são pobres. Porque não têm educação de qualidade. Porque são da cor errada. Ele não quer prisões melhores. Quer um sistema judiciário melhor. Pensa que, com a destruição de Emerald City, mudará tudo. Tim McManus (Terry Kinney), ali, é a classe média branca e esclarecida. Entende os motivos de Said, sabe das verdades que ele recita. Sabe da injustiça social e racial. Mas sabe, também, que aquela rebelião não mudará nada. Que podem ser brutalmente assassinados todos os prisioneiros de City, nada mudará. Hill confirma tudo isso em seu monólogo, mas McManus fica em silêncio frente ao líder muçulmano. Poderia cuspir todas as suas verdades em Said, que a rebelião não mudará nada, que a injustiça continuará tão violenta quanto sempre foi. Mas não o faz. Clama, apenas, pelo encerramento daquilo tudo antes que a equipe de elite invada a unidade e dispare à esmo.

Não, a rebelião de Said não muda nada. Oz continua tão violenta quanto sempre foi, com injustiças acontecendo corriqueiramente. Com negros sendo presos pela sua cor, pobres por sua renda e educação. Escrevi em A Rotina que Oz é uma série sobre morte. Agora, no último episódio da temporada, mantenho a opinião. No entanto, não é sobre a morte física. É sobre a morte da esperança. É sobre a morte da mudança. É sobre o status quo contra as mudanças necessárias. É sobre a morte, sim. O inalterável. A constante eterna.

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