[Chaves] O lixo / O homem das mil caras / Pintores amadores (SE01EP02)

O lixo / O homem das mil caras / Pintores amadores (“La basura / El mozo revoltoso / Pintor de brocha gorda“)
SE01EP02 – Exibido pela primeira vez em 12 de março de 1973
Escrito e dirigido por Roberto Bolaños

Seu Madruga (Ramón Valdés) e Quico (Carlos Villagrán) em Pintores amadores

Não é segredo que, em relação ao Chaves, o arquivo do SBT é uma completa bagunça. Prova disso foi o fato de que os fãs cunharam o termo “Episódios Perdidos” para referir-se a episódios desaparecidos. Isso mesmo. Com o passar do tempo, a emissora do Silvio Santos resolveu engavetar alguns episódios de Chaves (e também de seu irmão, Chapolin, diga-se) desde os primeiros anos de exibição da série. Apenas em julho de 2011, no Festival SBT 30 Anos em homenagem ao seriado mexicano, a emissora se pronunciou sobre o assunto. Em tons de palhaçada – para a ocasião, até ressuscitaram o palhaço Bozo -, explicaram que os “Episódios Perdidos” haviam sido retirados do ar por falhas técnicas. No Festival, exibiram trechos, que, dizem alguns fãs, foram claramente adulterados propositadamente, para provar o discurso. Disseram, também, que vários episódios também haviam sido tirados de exibição por terem histórias semelhantes a outras. Em agosto de 2011, o SBT passou a exibir parte deste material.

Toda essa explicação para introduzir o segundo episódio da primeira temporada de Chaves: uma compilação de três esquetes, dois do Chaves e uma história de personagem original, sendo que o primeiro, O lixo, nunca foi exibido no Brasil, e os outros dois, O homem das mil caras e Pintores amadores, estão longe das telas do SBT desde 1992.

É fácil, no entanto, entender o motivo de não exibirem O lixo, se é que o SBT o tem em seu acervo. Com menos de um minuto de duração, o esquete é, basicamente, uma gag para introduzir a abertura do episódio. Sem falas, Chaves (Roberto Bolaños) se atrapalha com seu chapéu enquanto varre o pátio, antes de tomar um daqueles clássicos soquetes do Seu Madruga (Ramón Valdés). A duração também serve como motivo para exibirem. Mas a gag ser colada à abertura original, que o SBT não exibe, explica melhor o caso.

Chaves (Roberto Bolaños) e Seu Madruga (Ramón Valdés) em O lixo

O segundo esquete é uma inofensiva historieta original, que teria diversos elementos reciclados em outros episódios, inclusive do Chapolin: trabalham em um casarão uma dupla de folgados, o mordomo Chespirito (Roberto Bolaños) e empregada doméstica Genoveva (Maria Antonieta de las Nieves). A confusão começa quando se espalha a notícia de que Mil Caras, um bandido com a habilidade de disfarçar-se perfeitamente de qualquer pessoa, fugiu da prisão. A dupla suspeita logo do doutor (Ramón Valdés), amigo manco de seu patrão (Ruben Aguirre). O restante do episódio mostra o mordomo tentando provar à sua colega Genoveva que o doutor é o bandido, já que Mil Caras possui uma cicatriz em forma de coração justamente no mesmo joelho que o convidado tem um ferimento.

O homem das mil caras

A piada, aqui, não funciona. Em anos seguintes, Chespirito iria fazer com que a personagem de Maria Antonieta fosse Mil Caras disfarçado ou com que o próprio mordomo estivesse escondendo sua real identidade. No fim das contas, o doutor realmente é o bandido e, como pagamento de aposta, a faxineira come seu espanador. Bolaños tenta criar o absurdo, sem perceber que a piada estaria na revelação real do criminoso e não na empregada comendo um objeto. Fica o sentimento de que você assistiu a este esquete por nada. Não existe o twist que Chespirito usaria anos depois, como em Não Se Enrugue, Couro Velho, Que Te Quero Pra Tambor, do Chapolin em 1974, onde a cena final tem a personagem de Florinda Meza retirando sua máscara e revelando ser o real bandido da história, interpretado por Horácio Bolaños.

Para encerrar a trinca – ou dupla, já que O lixo é basicamente uma pré-abertura -, Pintores amadores apresenta um enredo que se tornaria batido nos anos seguintes. Seu Madruga (Ramón Valdés) está pintando sua cadeira com aquela famosa tinta cor-de-hepatite e, ao invés de pagar o aluguel ao Sr. Barriga (Edgar Vivar) em dinheiro, se oferece para pintar as portas do cortiço. Claro, as crianças fazem disto um inferno.

A base do episódio e muitas de suas cenas seriam reaproveitadas em 1976, em dois episódios clássicos. Outras piadas do episódio, como as crianças se gabando por seu desempenho na escola, reapareceriam mais cedo. Até falas, como Chaves (Roberto Bolaños) dizendo que não se deve bater em mulheres nem com pétalas de rosa iriam dar as caras novamente.

Quem aparece pela primeira vez é o Professor Girafales (Ruben Aguirre), munido de ramalhete de flores, charuto e chapéu. A novidade, no entanto, vale pela imitação de Chaves, que usa um espanador como buquê e fuma um graveto.

Pintores amadores 2

Este é o primeiro episódio que algo acontece e, temo, vai acontecer em outros. Roberto Bolaños usou e abusou da reciclagem de roteiros na década de 70. Pra quem assiste na ordem cronológica da Televisa, a percepção é menor do que para nós, telespectadores do SBT, que exibe um número limitado de episódios sem uma ordem lá muito bem definida. A sensação de quem vê Pintores amadores pela primeira vez (o que pode ser comum, já que o episódio está fora do ar desde 1992) é a de déjà vu. Um telespectador casual, talvez, nem perceberia que esse episódio é diferente de Ser pintor é uma questão de talento e Pintando o sete, de 1976, de tanto que as piadas e situações se repetem.

Lembra do clássico diálogo “Por que está pintando a porta? / Pra ver quantos idiotas perguntam”? E Girafales pegando na mão de Chaves pensando ser Dona Florinda (Florinda Meza)? E Chaves lambendo o pincel pensando ser um pirulito? Pois é, estão neste episódio também. Seriam, por cronologia, as versões originais das piadas, e não as de 76 que estamos acostumados. Estranho descobrir que o clássico, na verdade, é remake, né?

Prêmio “Foi Sem Querer Querendo” de Melhor Insulto

Quico: – A propósito, mamãe, o Professor Girafales parece que vem ver a senhora hoje.
Dona Florinda: – Ai, e eu nesse estado! Eu preciso, pelo menos, passar um pente nos cabelos…
Seu Madruga: – Um pente? Seria melhor um rastelo de jardineiro.

Notas

  • Neste episódio, Seu Madruga está mais abusado do que o normal. Ele passa o episódio todo insultando Dona Florinda, ainda sem bobes e de vestido azul, e se safando de tabefes.
  • Florinda, aliás, está com um dedo quebrado. No episódio, diz que se machucou com um alicate.
  • Os pirulitos da Chiquinha são os mais estranhos que já vi. Parecem-se com colheronas pintadas de vermelho e dourado.
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