[Oz] A Rotina (SE01EP01)

A Rotina (“The Routine”)
SE01E01 – Exibido pela primeira vez em 12 de jullho de 1997
Escrito por Tom Fontana e dirigido por Darnell Martin

Dino Ortolani (Jon Seda) vê Kareem Said (Eamonn Walker) antes de causar os eventos que irão lhe matar.

Dino Ortolani (Jon Seda) e Kareem Said (Eamonn Walker) se encontram no purgatório. Há o Sagrado, o Profano e Oz.

Oz é uma série sobre morte. E Dorothy está no purgatório.

Tudo aponta para isso. Em primeiro lugar, é uma série produzida pela HBO. Além disso, é filhote de Tom Fontana, irmã de Homicide: Life on the Street, sobre a investigação de assassinatos em Baltimore. Oz acontece em uma prisão de segurança máxima. É claro, Oz é sobre violência e morte. E, mais schrodingeriana impossível, é sobre vida. Se todos, por estarem vivos, estão também mortos, com o tempo sendo a única interferência possível numa estrada cujo destino final é a morte, Oz é um experimento laboratorial em sua concepção. Onde mais, além de uma prisão de segurança máxima, pessoas seriam forçadas a refletir sobre a condição humana, sobre a própria morte? Por detrás dos muros de Oz não existe nada além de morte, protelada ou não. Se existem, em concordância, o Inferno e o Paraíso, Oz é o purgatório.

“Oz” é apelido da Prisão de Segurança Máxima Oswald – mais tarde na série, o local seria renomeado Penitenciária ao invés de Prisão –, uma instituição penal nos Estados Unidos para onde são mandados alguns dos mais perigosos criminosos do país. Além disso, divide o nome com O Maravilhoso Mágico de Oz, livro infantil de L. Frank Braum no qual a jovem Dorothy Ventania embarca em uma jornada por uma terra mágica para retornar para sua casa. Dorothy está nas terras de Oz contra sua vontade, levada por um furacão, e quer de lá sair.

Há, dentro de Oz, Emerald City. Um pavilhão – de nome retirado também da obra de Braum – administrado pelo idealista Tim McManus (Terry Kinney). Por sua amizade com um senador, McManus ganhou um bloco de celas para testar. Emerald City é criada por McManus contra as prisões tradicionais. Em City não existem celas com barras de ferro, mas com painéis de algum tipo de plástico ou vidro. Em City, os presos podem andar livremente pelo pavilhão durante o dia. Devem respeitar os horários pré-estabelecidos, trabalhar e se exercitar. A Rotina marca os horários em um contador claustrofóbico no canto da tela. McManus acredita na reabilitação, não na punição. Se City funciona, a série ainda responderá.

A morte tem seu tempo próprio, mas poucas personagens parecem ter esta percepção em Oz. O episódio piloto, A Rotina, apresenta um deles em Dino Ortolani (Jon Seda), soldado da máfia italiana, braço-direito do Don residente da prisão, Nino Schibetta (Tony Musante). O episódio é quase que inteiramente focado em Ortolani e, ao final, o carcamano cabeça-quente é morto.

Os presos não têm poder algum. Como parte de sua punição, perdem sua família, amigos, empregos e poder próprio. Não decidem quando comer, dormir ou acordar. É a prisão em sua mais alta concepção. Prisão de pensamento, de decisão. Ortolani toma a única decisão que ainda possui, a própria morte. Quando Ortolani é obrigado a trabalhar na enfermaria do hospital tomando conta de aidéticos, torna-se amigo do moribundo Emilio Sanchez (Jose Soto), que lhe pede que o mate. Ortolani nega-se. Depois, aceita. Sufoca Sanchez sabendo que isso lhe causará problemas, quiçá a morte. Toma conta do próprio destino e acaba espancado pelos guardas, amarrado e dopado na solitária. Seguindo ordens do líder negro Jefferson Keane (Leon Robinson), cujo irmão homossexual havia sido espancado por Ortolani, o preso Johnny Post (Tim McAdams) paga um guarda, entra na solitária, embebe Dino em álcool e lhe ateia fogo. Ortolani consegue morrer, desafiar o sistema que lhe oprime. Durante A Rotina, Ortolani, por diversas vezes, enfia a cabeça na pia de sua cela com água até a boca. Quase ensaia. Lembra-se que tem poder, que pode controlar a própria morte quando quiser. Pode? Suicídio por afogamento sem utilização de pesos, dizem, é impossível.

A Rotina apresenta quatro personagens importantes chegando à Oz. O trombadinha irlandês Ryan O’Reily (Dean Winters) inicia um jogo de influências e manipulação para livrar-se de seu desafeto, Ortolani. O advogado bem-sucedido e alcóolatra Tobias Beecher (Lee Tergesen) começa sua passagem pelo purgatório após, bêbado, atropelar e matar uma garota. É enganado e estuprado pelo líder neonazista Vernon “Vern” Schillinger (J.K. Simmons). Miguel Alvarez (Kirk Acevedo) chega à prisão no mesmo lote de presos que Beecher, mas não passa do portão de entrada do pavilhão. É esfaqueado. Quem se sai bem é o líder muçulmano e militante negro Kareem Said (Eamonn Walker), preso por incendiar o armazém de um homem branco. Autor de sucesso, Said confronta McManus e o diretor de Oz, Leo Glynn (Ernie Hudson): 78% dos presos de Oz são negros e a porcentagem de guardas é de um para nove prisioneiros. Ele pode incitar uma rebelião quando quiser.

O cadeirante Augustus Hill (Harold Perrineau) – ao mesmo tempo personagem e narrador onipresente da história – encerra A Rotina: “O juiz disse ‘prisão perpétua sem possibilidade de condicional’. Sem possibilidade. Perpétua. Em algum momento, eles percebem que não estão indo a lugar nenhum. Já vi acontecer. Uma calma aparece em seus olhos. É como se descobrissem algo que o resto de nós nunca verá. De repente, eles são livres em outro sentido. Estão prontos para morrer. E talvez eles façam o possível para ajudar que isso aconteça.

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